segunda-feira, 15 de março de 2010

SimpleS

A princípio foi a vela, colocada num altarzinho do lado da televisão, e a menina que andava meio tristonha e quieta juntava aquelas mãos pequeninas e claras e meio que rezava meio que conversava com Santo Antonio.
E o santinho de gesso achava bonito, a luz da vela e as sombras que ela produzia, ficava ouvindo a menina pedir um amor:
-O inverno é frio meu santinho, o inverno é frio...

Depois o santo que não dava jeito, foi parar de ponta cabeça num copo d’agua e a menina já nem acendia vela nem nada, caminhava de um lado pro outro resmungando desamores:
-Tem dó meu santo, só te tiro daí quando me trouxer um namorado, é primavera Santo Antonio, e eu quero flores que não colhidas por mim.
E o santinho de gesso sorria por dentro achando graça do mundo de ponta cabeça, do jeito como a água e o vidro do copo transformavam as formas, as cores, a menina.

No verão a tinta do gesso foi saindo na água, o santinho do fundo do copo mal ouvia os pingos das chuvas de fim de tarde, nem sentia mais o cheiro da terra molhada que elas traziam, ouvia a menina impaciente prometer:
-Uma roupa novinha, uma altar mais bonito, uma vela daquelas bem grandes...
Então o santinho de gesso achou que a menina não notaria nunca o menino que lhe cabia, o amigo de sempre, o que lhe emprestava o casaco depois da aula nos dias frios, o que sempre colocava uma flor na orelha da menina quando ela usava cabelos soltos na primavera, o mesmo que escrevia poemas pra ela sem ela saber... Talvez ela nunca notasse mesmo e Santo Antonio quase desistiu...

No outono ela reparou em como o cabelo dele combinava com as folhas secas
Ele sorriu aquele seu sorriso tímido de canto de boca
Ela achou diferente por ora o brilho que ele tinha nos olhos
achou mais do que nunca agradável aquele abraço que agora continha os ventos incansáveis do final de março
o sol produzia um colorido diferente
e a menina seduzida pelo óbivo sentia um frio na barriga

Ele ganhou um beijo
Ela ganhou poemas
E o santinho de gesso, roupa nova, um altar bonito e uma vela bem grande!

5 outros passos, outros rumos!:

suellen nara disse...

"tem dó meu santo..." rs

eu queria ser uma espécie de santo, só para ter o poder de alegrar corações.

"sem choro nem vela..."

beijo.

Priscila Rôde disse...

Tenho resistência a santos! rs


Um beijo.

Luanne de Cássia disse...

ahhhhh
que BONITO!
Lindo mesmo!
tô seguindo já
*-*
parabens

camila gibbs - a humanista disse...

Seu texto traz de forna humorada, uma reflexão profunda acerca do amor, que escondido nas minúcias do cotidiano, carece de olhares demorados para ser descoberto...aff..tô demorando o olhar mas ta dificil!ehhehe..parabens belo blog

Ana disse...

Lindo texto, Parabéns!

Gosto da forma que vc transcreve as palavras do seu coração/pensamento para o papel/digital. Simplesmente maravilhosa!
E lendo este texto, faz nos refletir realmente, como as vezes aquilo ou alguem que tanto queremos ou sonhamos está tão perto da gente (e nem notamos e não queremos notar).
Faz com que, a gente se veja atenado em ver e sentir as coisas com toda a beleza que as mesmas são.

Beijos.

Ana - Belo Horizonte.