quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

(este texto, não quis me dizer seu título!)

eu queria que este texto,

este empilhado de frases esforçadas,

este punhado de palavras catadas de mim,

e por mim digitadas silenciosamente,

não fosse apenas mais um texto.

Que fosse um suspiro, um sussurro,

e que neste momento, neste exato momento,

o vento o carregasse ao pé do teu ouvido,

e que em ti, aí em ti,

(que dorme sem nem suspeitar)

que aqui, bem aqui,

eu, no escuro de um quarto meio bagunçado, meio confortável,

empilho frases esforçadas pensando no teu nome,

e cato meia dúzia de palavras no mais intimo de mim,

querendo estar aí,

ou pelo menos,

que meu desejo simples pra este texto leve,

que meu anseio a estas frases com amor,

seja em ti um sonho trazido pela brisa delicada da madrugada,

mesmo que o vento destrambelhado tenha perdido palavras enroladas na cortina.


leve texto leve


leve

do adjetivo,

da simplicidade lírica,

de letra-a-letra disfarçar,

por de trás de tantas outras,

a palavra amor,


a sutileza da palavra sem peso,

como se fosse palavra nenhuma,

como se fosse apenas um arrepio em tua pele.


leve

do verbo, do vento, do sonho,

leva que é teu, tu é a dona,

leva quem leu porque agora é seu,

levo eu, dono de nada,

nem da dona,

nem do vento,

e nem de palavra alguma, destas que colhi antes de dormir...

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Resto

um texto promissor bateu a porta

em mim - a hora

agora, as palavras se encaixam como se fossem um jogar de Tétris em nível fácil

mas há uma distância entre mim e o texto

entre mim e o que eu vejo- penso- quero

(assim mesmo com hífen, um tudo ao mesmo tempo)



posso medir esta extensão incerta?

quanto silêncio mora no precipício existente entre mim e cada palavra que eu não teclo?

e quantos quartos, e corpos de amantes que se encontram,

poluem a lacuna palpável entre mim e cada pedaço de um corpo que eu desejo e não toco?



mas há as palavras que quase nem nasceram e já se foram

teriam sido lindas se eu as tivesse plantado

achado o papel antes de perde-las

teriam sido belas, mas morreram!

agora como vou gritar o que eu nem disse?

juntar os cacos e apresentar a peça como se fosse rara!



- não faço clima de terra devastada –

faz muito que abandonei os meus endeusamentos

mas fico com aquela sensação de quem viu o pão

e apenas come as migalhas

a roupa de canalha já não me veste

a noite, soprava brisas corajosas

até ver o sol, que insiste em deixar clara minha covardia!

clareie as idéias ó gênio

a honrosa glória deste escritor que nunca venderá sequer um livro

a desculpa pomposa de não ter sequer escrito o tal livro

um filho imaginário correndo pelos jardins

(que por ele, se eternizariam floridos)

um vendedor sagrado, de terrenos no céu!





houve o amor

ouve o amor

escuta, pois não sou eu que te digo

eu sou o que sempre cala!

estas palavras nem foram as escolhidas

benditas míseras que sobraram

(ah! se a minha caneta falasse por certo o que eu sentia!)

fui iludido pela calmaria daqueles olhos

fui traído pela certeza das águas turvas





sou a sobra do que eu não tive tempo pra ser

o vacilo entre as escolhas astutas e o fracasso,

vivia sendo,

todas as alternativas que minha esperança permitia

até que se acabasse

o resto de todas as possibilidades intocadas,

o poema, que nasceu de um outro poema morto,

a impressão de que se fosse pra ser, teria sido,

a ilusão de que ser isso, é muito melhor que nada!



eu sou um poeta, que só pensa em gritar!

mas ao tentar gritar... a voz falha...

sou um precipício para que tu venha saltar com a tua coragem

(já que eu nem isso)

sou os segundos esgotados,

e as dezenas de portas contidas em cada um deles que nunca mais serão abertas,

sou o que ficou,

a certeza de que a de que a estupidez é uma dádiva,

e a de que o meu plano é um piano mudo, coberto pela poeira.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A neblina

A neblina é uma nuvem que acha que é gente,

ou é uma chuva ao contrário, fica a água, cai a nuvem...

se eu pudesse,

eu te dava mais um destes textos com teu nome ali gritado nas entrelinhas,

com o teu nome ali gravado, na incrível possibilidade de não ser

mas eu ando com a cabeça nas nuvens e a neblina esqueceu-se de trazer...



A neblina é uma nuvem que quer morar aqui,

não sabe ela que bom é lá no céu

pra viver pertinho das estrelas, pra ser vizinho de Deus!

se eu pudesse,

eu te dava mais um destes textos bem bonitos sobre amor,

com o teu nome sublinhado, tatuado no papel

mas o que é que eu sei do amor?

eu sei que a neblina é uma nuvem com a forma do mapa da cidade

(nuvem rua nuvem esquina)

eu sei que hoje pela manhã ela escondeu o sol

e sei

que eu não sei nada sobre o amor!

mas o teu beijo me deixou nas nuvens,

e a neblina (nuvem menina) insiste em não me devolver...

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Moça

Ô moça,


Tu, que é a dona da lonjura

da loucura de viver assim, em um meio sorriso

explica num verso, em um tópico urgente

as tuas angústia

as lacunas da distância

a descrição de mil amores

e como são as tuas coxas, moça



ô moça

que eu sou o dono da lonjura

da ousadia de transformar rascunhos assim, em um inteiro sorriso

desconversando num verso, em um tópico quente

as minhas lacunas

as angústias da distância

a indiscrição de não poder

mas imaginar as tuas coxas, moça



Ah moça!

e se eu fosse feito de rima, ou ritmo, te colocava num samba

mas tu é feita de dia e sol, já que eu sou feito da noite

e se poema é o que te toca, as minhas mãos se ti tocassem, moça, te deixariam bamba...



Maria Gadú e Leandro Léo - Linda Rosa



quinta-feira, 21 de julho de 2011

Eu tenho um poeta mudo

Eu tenho um poeta mudo,

Que lê na folha branca,

silêncio!

no rabisco do canto,

uma canção de amor...



ah! Se eu fosse verão e o suor do teu corpo

pra te percorrer

pra ser teu gosto na língua da menina que te beija...

mas eu sou apenas a imaginação de um poeta mudo

o suspiro de uma paixão que nunca aconteceu...



Eu tenho um poeta mudo,

muda mundo

E ele ali, quieto

Lendo no teu poema - um grito!

E do meu, apenas duas linhas

Falta de rima

Falta de rima!

Meu poeta descombina

Descompassa

(e inventa palavras)



Ah! Se eu fosse o verão e o suor do teu corpo

Pra te deixar nua

Pra ser a alegria nos olhos do menino que te espia pelo vão da cortina...

Mas eu sou apenas o frio que congelou meu poeta

As incertezas de um amor que nunca aconteceu...



Eu tenho um poeta mudo,

E nos rascunhos amassados e arremessados ao lixo

Um monumento ao poema que morreu

ao poeta vagabundo

ao poema que nem sequer nasceu!

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

a casa do homem de bronze

Aqui em Porto alegre existe uma ruazinha de pedras quadradas, ela começa na beira de um rio, um rio que é lago, e tem muros coloridos e uma usina, e é rio, e é Guaíba, e é pôr do sol. Uma rua laranja de sol no dia, laranja de seus postes antigos à noite, uma rua túnel de arvores, uma rua que acaba numa praça, que é praça, e é feira volta-e-meia, e é livros, e é a praça dos senhores-gente e dos senhores-bronze, foi ali que eu conversei contigo, Mário, ali no teu banco, me intrometi nas tuas intermináveis conversas com Érico...




E nesta rua tão linda, entre tuas esquinas e os olhares destas tuas gurias, entre teus botecos e teus bebuns caídos, entre um rio e uma praça, existe a tua casa, a tua gigante casa rosa, tua casa-cultura-casa, teu jardins suspensos, e teus livros e os outros, e as tuas paredes com os poemas que eu mais amo, teu quarto e um quadro com teu cabelo engraçado, de onde tu conversaste comigo sobre teus cata-ventos danados e umas cartas perdidas entre páginas que nunca mais serão lidas pelos mesmos olhos, me explicou o cabelo, as dificuldades de tirar fotos contra o vento, e falou sobre palavras e lanternas chinesas de papel, tu me sorriu, eu sorri de volta, e tive vontade de beijar o quadro (além de textos tu tens esta contagiosa cara de querido). Uma casa rosa, e o teu café, e o teu Quarto Mário, com tuas leituras e teu cobertor xadrez, e uma sala de teatro e teus poemas que volta-e-meia são meus... Pra ti, e tua casa rosa, Mário, é o meu poema e tudo mais que eu só disse no olhar...

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Guri

Se tivesse vela, assopraria e faria um pedido – mas as velas estavam apagadas!

Se houvesse um bolo, as velas fariam mais sentido, mas o bolo não existia e as velas permaneciam sem fogo pra se soprar, sem pedido pra se fazer, sem sentido algum.

Era um guri de pouco barulho, de pouca frescura, de poucas palavras, não desejava confete, e a cada aniversário silencioso só dizia não querer dar razão ao tempo.

Ele não contava aniversário, e por isso nunca envelhecia.

Mas o tempo é amigo das pessoas boas e foi girando o mundo daquele jeito lento que o guri só notava quando a noite chegava, amenizando o calor destes dias de Janeiro.

Janeiro era das férias, nunca do guri, mas ele não chiava, resmungava umas poucas palavras e já tomava jeito, ele no fundo queria era dezembro, não por ganhar dois presentes, mas pelo guri bom que nasceu na manjedoura...

Mas o tempo é amigo Guri, também dos guris de Janeiro, mesmo sem dois presentes, sem vela, sem pinheiro, mesmo que o calor castigue...

No último aniversário, um anjo deixou flores brancas pro guri enquanto ele dormia, e o guri sem palavras pra agradecer, acendeu uma vela, sem bolo, sem nada, só aquele monte de coisas boas que trazia no coração, e antes de apagar a vela, pediu em silêncio, pra que aquele anjo nunca fosse embora!